Ela estava sentada, apoiando o cotovelo sobre a mesa com as mãos no rosto, exibindo uma cara esnobe. No fundo estava triste, mas era boa de mais para assumir suas fraquezas; e no fundo sabia que tinha culpa na tristeza, na solidão e no seu fracasso pessoal.
Era exacerbada na perfeição, na sua perfeição. Gostava de gabar-se do corpo lindo que tinha quando era jovem. Adorava contar vantagens sobre jamais ter cometido erro algum. É verdade, ela jamais errava. Nunca falou alto, desrespeitou alguém, foi promíscua, rude ou mal intencionada. Cozinhava como ninguém, limpava como ninguém, fazia artesanatos como ninguém, cuidava de crianças como ninguém; e no final acabava não sendo ninguém, pois
era extremamente dependente de forças maiores, mesmo sendo tão auto-suficiente.
Infelizmente, ou não, nunca realizou seus maiores sonhos. Nunca fincou suas raízes e sempre culpou terceiros. É claro, depositar suas frustrações em outras pessoas torna tudo mais fácil. Assumir a culpa dói. Assumir o erro desgasta. Assumir a falha consome. Dedicar o erro aos outros é anestesiante.
Talvez por isso ela não tivesse nada. Se essa tal perfeição fosse mesmo real, qual o sentido de Deus lhe dar meios de aprender?
As coisas acontecem justamente com as pessoas que não tem condições de enfrentar o problema. Surgem como um desafio, uma chance de aprender e amadurecer cada vez mais o lado físico e o lado espiritual.
É essencial errar. E ela nunca errou...