domingo, agosto 15

sobreviva. sozinho.

Fiquei sentada por muito tempo olhando a minha vida passar. Assisti a minha própria autodestruição de camarote. E não fiz nada.
Talvez eu estivesse esperando uma solução divina e totalmente espontânea.
Eu continuava sem fazer nada.
Quando você está se sentindo completamente sozinha é mais fácil tomar dois comprimidos e deitar-se para não ter que aguentar uma noite escura e dolorosa. Era sempre assim. Chegava às onze da noite, eu tomava dois comprimidos e me deitava. Às vezes eu dormia, às vezes cochilava, às vezes ficava acordada a noite toda – remoendo um passado-presente doloroso.
Afundar em uma dor é mais fácil do que levantar, afinal você já está no fundo, não há necessidade de fazer esforço algum.
A dor torna-se constante e lhe acompanha. Depois de um tempo ela não lhe incomoda mais. Ela se torna sua companheira fiel e vital para sua sobrevivência.
Depois de certo período – extenso – de tempo, é difícil acordar. Um turbilhão de coisas aconteceu e as cicatrizes não se fecharam completamente. Muitas delas ainda estão expostas. De repente, quando você acorda e vê que sobreviveu, sua cabeça dói e seu corpo ainda está frágil.
Não é fácil. Não se pode levantar e sair correndo atrás da vida que ficou para trás.
Você fica calejada com certas coisas, sabe seus limites e raramente se abre a novas oportunidades. O medo ainda lhe acompanha. E vai acompanhar por um bom tempo. Desfazer-se de um passado completamente tenebroso é como se livrar de um vício barato.
Difícil, atordoante, cansativo e doloroso.